ORIGENS SECRETAS: CARLOS, O CHACAL
BERLIM OCIDENTAL, PORTAL DE BRADEMBURGO, O MURO,3:25 DA MANHÃ DE UMA TERÇA FEIRA NO INÍCIO DE JANEIRO DE 1961.
Por trás de seus binóculos Lenz, George Smiley observava as torres Norte e Oeste do Muro.A Sessão de Passaportes, na torre Norte, estava tranquila ha duas horas, mas a torre Oeste mantinha seus faróis acesos, bestas estúpidas e eficientes dividindo uma cidade estuprada, um país derrotado, um planeta dividido. Smiley colocou os binóculos em frente ao volante do carro e olhou para o relógio.
"Atraso é o Caralho..."
A torre Oeste disparou em sua direção. Mesmo a mais de quinhentos metros de distância a luz incindiu sobre as lentes dos binóculos e ele teve de fechar os olhos. Smiley lembrou-se de seu velho mentor, o homem que lhe dera os binóculos alemães, uma relíquia da Grande Guerra...Tempos mais Simples...
"Merda. Está tudo atrasado hoje.." E George Smiley tentou sorrir,o Coronel Hannay teria sorrido por coisas piores. Mas aquela era uma Guerra Nova e Estranha. E pior, seus dentes trincavam, ele não conseguia sorrir. George Smiley não sorria sob pressão. Por isso, talvez, tivesse ficado tanto tempo na geladeira da burocracia. Mas Control...alguma coisa fora do lugar. A Agência iria desmoronar a qualquer momento se tudo falhasse ali e agora. Olhou o relógio de novo.
"Merda!"
Focaizou nos binóculos. A voz do Coronel.
"George, seja paciênte em território inimigo e mais paciênte aínda em seu território. Não confie em nada. Quando sentir a oportunidade, entre rápido e saia sorrindo."
George Smiley acendeu um cigarro e abriu a janela à sua esquerda, a coisa brutal e negra ocupando a cidade até seus confins de um lado a outro ... a loucura absurda dos agentes da Gringolândia escavando um túnel de quase oito quilômetros sob território hostil...os russos sabendo de tudo....a humilhação...
"Merda, Caralho, Puta que me Pariu!!"
Ao seu lado direito ouviu o ruído de arranhões na porta do carro de lado para a calçada.
"Filho de uma puta!"
Abriu a porta do carro da maneira mais silenciosa possível.
Um cachoirrinho branco entrou e sentou-se no banco do passageiro arfando.
"Tibérius, caralho dos infernos!!"
O cachorrinho branco disse:
"Foi Philby Senhor Smiley, ele me segurou no Pub, mas o convenci de que ia comer uma cachorrona e el eme liberou..."
"Ele te seguiu?"
"Sua Secretária Senhor, ela apareceu no último momento..."
"Ótimo."
Tibérius Wolf recuperou seu chi respiratório.
"O senhor pensa de fato que é Philby?"
"Tibérius, se a coisa for tão séria como imagino aqueles alemães ali do Muro vão disparar do lado de cá e quebrar a trégua."
"Isso será UMA GUERRA."
"Tibérius, os Primos da Gringolândia vão ficar muito, mas muito putos..."
"Senhor Smiley, nós estamos esperando por quem?"
Uma barulheira. Gritos em alemão. Nenhum dos dois agentes conseguia entender o que era reverberado. Todas as Torres do Muro se acenderam. Os alarmes soaram. Movimentações de tropas.
"Ah...merda..." suspirou Smiley..
"Fudeu." pensou o cachorrinho.
O som vinha num lamento elevando em seu tom. O lamento aumentava seu volume. e aumentava. e aumentava. Uma máquina de oito toneladas, cheia de explosivos espatifou-se contra a o lado Oeste do Muro.
" Minha Nossa Senhora da Bicicletinha, dai-me equilibrio..." sussurrou Smiley.
"Fudeu, Fudeu, Fudeu, Fudeu,Fudeu, Fudeu,Fudeu, Fudeu..." sussurava Tibéius Wolf.
"Vamos sair do carro, rápido!" e Smiley pulou e se jogou perto de ímpeto aguardando uma rajada de metralhadoras.Wolf saiu ao mesmo tempo. A coisa toda ia ficar muito feia.
E ficou. O carro explodiu.
"MERDA CARALHO, PUTA QUE O PARIU, FUDEU PÔRRA, FUDEU A MERDA TODA!!!!"
E as metralhadoras rajavam apenas do lado de lá do Muro. Do lado de lá podía-se ver o vulcão do ódio.
"Tibérius! acenda a lanterna, ele está vindo! ele passou!" gritou Smiley.
Tibérius perdeu a lanterna na explosão do carro. Mas entre as sirenes e os fogos no alto dos céus daquela cidade amaldiçoada pela Guerra ele conseguiu compartilhar do que George Smiley via tão bem. Uma coisinha minúscula correndo na direção deles. Pequeno e frágil, mas inacreditavelmente rápido, pensou Tibérius Wolf.
A coisinha se aproximou calmamente deles.
Rápido demais, pensou Tibérius Wolf. Calmo demais.
O pequeno Chuhuahua se apresentaria com um estudante de marxismo-leninismo, formado na Universidade de Moscou. Carlo Herndandez Fodorenko.
George Smiley teria meses para se recuperar de um ataque apoplético, o Império da Gringolândia faria muitas perguntas.
Mas Tibérius Wolf tería uma única certeza....uma certeza que lhe custaria caro...
"Esse desgraçado deste chihuahua tem muito culhão...."
SÓ LONGA
"Como é que um cachorro se tornou Chefe de uma das Agências de Espionagem mais importantes do planeta?" Ela perguntou.
"É uma longa estória." Respondeu Tibérius Wolf.
"A estória pelo menos é boa?"
"Não. Só longa."
O BARÃO DE TORCHWOOD E A BOLINHA
Tibérius Wolf, meu cachorro, voltára de uma cerimônia no Palácio de Buckingham onde recebêra do Rei William a Ordem da Jarreteira, e agora era Sir Tibérius Wolf, Primeiro Barão de Torchwood. Eu o esperava em frente a sua mesa procurando uma décima primeira unha para roer e já começando a desamarrar o cadarço do sapato para mandar ver nas unhas do pé quando a porta se abriu e ele entrou com o medalhão dependurado no pescoço com se fosse uma piada de mal gosto. Elizabetha Alexandrovna, também conhecida como Bettie Page, A Garota Renascentista, entrou logo atrás. Ela carregava pastas de arquivos e os depositou cuidadosamente na mesa de jacarandá do Senhor Wolf ( ou seria Sir Wolf, ou Sir Tibérius?). Bettie Page estava usando seu vestidinho preto básico, suas pernas ronronavam enquanto andava mas ela permanescia em silêncio como se o Novo Patamar do Chefe também a deixasse cautelosa no dirigir-se a ele. Ao virar-se para sair a acompanhei com os olhos, cada lado de suas maravilhosas nádegas sussurravam num Plano Mediúnico Inalcansável, Ra-bi-no, Ra-bi-no, Ra-bi-no....Eu quase podia ouvir até que a porta se fechou. Fiquei perturbado, eu aínda ouvia...
"Rabino!!!" - rosnou a Voz de Leonard Cohen do meu cachorro.
"Sim Senhor!" - voltei-me imediatamente.
Tibérius Wolf me encarava.
"Pegue a bolinha." Ele disse.
"Senhor?" - eu deveria dizer algo como Sim, Barão Wolf ou algo assim?...
"Na gaveta embaixo da garrafa de Ballantines. Tem uma coleira também. Pegue os dois."
Levantei-me e procurei as coisas. A bolinha de tênis verde, velha e surrada, e uma coleira, igualmente surrada como se tivesse saído de uma trincheira perdida da Terra de Ninguém, um século atrás. Talvez tivesse saído mesmo.
"Pegue a bolinha e a coloque no bolso e depois coloque a coleira em mim."
Eu fiz tudo em silêncio. Ele reparou.
Depois que coloquei a coleira ele se virou para mim.
"Não se atreva a me chamar de Sir. Recebi esta ...- ele olhou para o Medalhão da Jarreteira sobre a mesa- ...homenagem estúpida do neto coroado de uma velhinha muito esperta e decrépita que acredita que eu, recebendo o Baronato de Torchwood também cuidarei da Sessão dos Visitantes.."
"Sessão dos Visitantes?"
"Alíenígenas. Torchwood é uma Sessão da Inteligência que cuida apenas de alíenígenas, um pardieiro falido e francamente desinteressante. Reformarei a coisa toda....aínda que não concorde com a política de Sua Majestade. E ... Torchwood é vizinha do Condado de Baskerville. E eu não gostei da piada Rabino."
Tibérius Wolf se dirigiu para o canto esquerdo por trás de sua mesa e apertou com sua patinha o lado da estante. Uma porta se abriu.
"Venha Rabino, vamos descer uns lances de escada e seguir por um corredor, estaremos na Praça do Piccadily Circus em alguns minutos. Segure a coleira, por favor."
E isto foi feito. Meu cachorro descia a escada estreita em caracol à minha frente. Eu o olhava, e pensava...
...que as mais estranhas criaturas doss confins dos 33 Universos Conhecidos podem ser vistos de vez em quando como homens e mulheres, magros e morenos nas calçadas da City em trajes amassados, caminhando com o leve passo Estrangeiro, esgueirando-se para dentro dos clubes como se não conseguissem lembrar se pertencem a eles ou não. E com estas criaturas você pode conseguir informaçôes sobre Tibérius Wolf. Melhor aínda, você vai ouvir falar sobre ele em portos pesqueiros e esquecidos, onde as montanhas albanesas mergulham no Adriático. Se você trombar com uma peregrinação a Meca, há uma grande chance de que encontre ali uma dúzia de amigos de Tibérius Wolf. Em cabanas de pastores do Cáucaso você poderá encontrar restos de ossinhos largados, pois ele é perito em largar seus ossinhos por onde passa. Nos caravançarás de Bucara e Samarcanda ele é conhecido e há caçadores nativos na cordilheira de Pamir que aínda falam dele em volta de fogueiras. Se você fôsse visitas São Petesburgo ou Cairo, não adiantaria pedir indicações a ele, e se ele as desse elas o co duziriam a redutos estranhos, onde dervixes circulariam em êxtase cósmico junto a seguidores de Gurdjief e Ouspensky, o Quarto Caminho...Mas se o Destino o compelisse a ir para Lhasa, a Yarkand ou ao Sri Lanka, ele poderia traçar o roteiro para você e alertar amigos muito mais poderosos...os Mestres. Nós, os que trabalham para a Agência, somos denominados loucos, bizarros e insanos, mas a verdade é que somos a única raça no mundo que podem produzir seres capazes de entrar na pele de povos remotos. Talvez os cães como Tibérius Wolf ou mesmo o Chihuahua Traidor, Carlos, o Chacal, sejam melhores que os humanos, mas somos todos mil por cento melhores que quaiquer outras Agências de Espionagem. Tibérius Wolf foi o Cão Andarilho erguido ao patamar de Gênio. Nos Velhos Tempos tería liderado uma Cruzada ou descoberto uma nova rota para as Índias. Hoje ele apenas saía por uma porta secreta detrás de um teixo druídico na Praça em Piccadily Circus, guiado por seu próprio espírito...
Começava a anoitecer. Um homem e seu cão na Praça.
Retirei a coleira. Saquei a bolinha do bolso e a atirei.
Ele correu atrás da bolinha e voltou com o rabo abanando.
Atirei de novo.
E de novo.
E de novo.
E de novo.
Um homem e seu cão numa Praça.
Tibérius finalmente deitou-se e descansou no seu santo sono de cão.
E eu permanesci alerta a seu lado.
Porque até mesmo os Heróis mais improváveis e imperceptíveis precisam curtir a simplicidade da Vida. Uma Vida cheia de Perigos.
"Descanse bem Sir Tibérius.."
"Cale essa boca Rabino e deixe de firulagem."
"Sim Senhor Wolf."
CONVERSA AFIADA COM O GODZILLA
Saí da livraria e fui até o mercado onde comprei algumas Heinnekens e soquei na mochila junto com um livro do John Bunchan, escritor de espionagen dos anos 20 do século passado e muito apreciado por Alfred Hitchcock. Fui até o Parque do Ibirapuera e postei-me em frente ao lago, saquei uma e comecei a ler. A estória é ótima inclusive, dos Velhos Tempos em que o espião tinha de se virar com telégrafos ineficientes, atravessar os mares em navios a vapor, pegar aviõezinhos teco-teco, montar em corcovas de camêlo, falar umas oito línguas...nada de pôrra de Internet, nada de Tom Clancy, o camarada tinha de se virar contra os beduínos, os agentes do Kaiser, a Okrana Russa e outras merdas de um mundo mais simples e não menos brutal...
Enfim, era para ser outro sábado tomando umas brejinhas e lendo um livrinho bacana sem ninguém para encher meu saco...e lá estava eu na melhor parte, quando os caras estão num muquifo em Constantinopla prestes a decifrar uma conspiração que mudaria os rumos da Grande Guerra....
"Boa tarde cavalheiro, o senhor poderia, por obséquio me indicar o caminho para o Congo Belga?"
Antes de olhar para o puto que interrompera minha leitura computei a informação embutida na pergunta. Congo Belga?Sem tirar os olhos do livro, em minha clara postura de Foda-se-cai-fora respondi:
"Congo Belga? O que é isso? Um clube?"
"Talvez na Pérfida Albion seja um clube, refiro-me aos domínios do Rei Rodolfo."
Tudo bem, fui obrigado a olhar meu interlocutor. Olhei. Olhei bem. Um cisne usando óculos escuros Armani, trajando uma farda cáqui com as insígnias do Reino da Bélgica. Maravilha. Carlos, o Chacal deve ter convencido o Abílio Diniz a colocar LSD 25 na minha cerveja. Isso. Um complô. Faltando vinte dias para o fim do mundo os putos resolveram envenenar a minha cerveja. Não há misericórdia neste mundo. Mas tudo bem.
"O Congo Belga não existe mais meu chapa, e Sua Majestade, o Rei Rodolfo, já deve ter virado carvão orgânico no Inferno."
"Merda!" Disse o cisne-com-óculos-escuros-Armani-usando-farda-cáqui." Eu sabia que não devia ter confiado em Aleister Crowley, aquela Besta..."
Subitamente no meio do Lago do Ibirapuera começou uma confusão. Luzes azuladas e vermelhas piscavam, e água começou a borbulhar. Que nem naqueles episódios do Spectroman, com a diferença de que ao invés dum macaco usando uma peruca do Gugu Liberato era uma pôrra dum cisne de óculos escuros que foi enganado de alguma maneira por Aleister Crowley.
E o Godzilla nadou um pouco e se acotovelou na margem bem na minha frente como se fôsse uma diva num episódio de Miami Vice.
"Sacrè Bleau! Misericorde!" Grasnou o cisne extraviado no espaço-tempo. As unhas do Godzilla o agarraram pelo pescoço e o bicho maluco foi para o bucho do Rei dos Monstros.
"Buuuurp....boa tarde Rabino." Disse o Godzilla.
"E aí Godzilla, beleza?"
"Você deveria parar de beber, está começando a ver coisas."
"Não me diga."
Godzilla parecia diferente desde a última vez, quando o entreguei para a Menininha, supostamente D'us. Parecia mais centrado, calmo como um Dalai-Lama Anônimo tirando uma lazer em alguma praia de Búzios. Pensei numa caipirinha, saquei outra cerveja da mochila.Beberiquei mais um pouco. Godzilla apontou para o livro que eu estava tentando ler.
"Bom?"
"Divertido."
"Ando lendo bastante também."
"É mesmo?"
"Ela é muito inteligente, você sabe, me indica uns livros, umas músicas, me apresenta a pessoas..."
"E o quê você tem lido.?"
"Nietzsche. Espinosa. Um tal Alan Moore, um outro..Morrison, Walt Whithman..umas coisas assim,ela me apresentou os caras, legais, bacanas, só o Bigodudo me comove sabe?...parece que ele se ferrou feio com mulher...sabe como é...e eu descobri que ele curte haxixe...ele e o Moore parecem se dar bem...mas tutto buona gente."
"Fico feliz por você. E o Espinosa? Como é que ele é?"
"É um gozador, tira sarro de todo mundo. Acho que Ela é meio caída por ele. O cara é bem esperto também..."
"Godzilla, ficofeliz por você."
"Você não parece feliz o suficiente."
"Andam botando coisas na minha cerveja, ando meio maluco ultimamente."
"Aínda trabalhando para o Senhor Wolf, ou melhor, para Sir Tibérius?"
"Eu, e você também meu chapa."
"Em outro grau. Eu estou com D'us, se D'us ajudar Tibérius Wolf eu trabalho com você."
"Dá na mesma essa pôrra." Eu não posso beber muito, fico mal-criado e sem-noção. E eu já começava a achar que o Godzilla tinha virado Crente.E eu odeio convertidos...
"Calma Rabino, quando o Chacal aparecer eu estarei por perto. É do maior interesse Dela que o Download Cognitivo Final tenha sucesso."
"E D'us quer que todos se tornem Deuses?"
"Era o Plano desde o Início Rabino, era o Plano desde o Início...por isso Tibérius Wolf sempre evitou matar o Chacal, mesmo nos eventos em Fernando Poo, quando o planeta quase virou churrasco atômico ou quando a própria Morte o contratou para encontrar Minha Senhora e ele aceitou seu relatório e ficou por isso mesmo."
"Os putos envenenaram a minha cerveja. Eu estou trocando uma idéia gnóstica com o Godzilla, eu preciso de ajuda..."
"Você não precisa confias em D'us Rabino, mas precisa confiar em Tibérius Wolf. Porque está tudo na sua cabeça Rabino. Sempre esteve. Você é o Rabino, o Judeu Errante."
"Grande merda."
"Faltam vinte dias Rabino." Disse o Godzilla mergulhando novamente, o Monstro do Lago do Ibirapuera.
E eu preciso parar de beber antes que essas coisas acabem comigo antes que o mundo acabe...
ORIGENS SECRETAS: O RABINO
E o jovem Rabi Yoshuah, aínda com dez anos conversava com os Doutos Rabinos numa tarde, aos pés de uma saudável oliveira sobre os preâmbulos da Torá e suas multiplas interpretações, pois naqueles tempos surgia uma tradição envolvendo as letras do Livro e suas assombrosas possibilidades em tornar vivo o barro, em se invocar Anjos, em se entrar no Jardim...
A conversação durára dias e noites e todos os Rabinos estavam embevecidos pelo esclarescimento incomum daquele imberbe Rabi.
À uma distância segura, aguardava Tibérius Wolf, um já bem experimentado Agente Especial, pronto para ser promovido a qualquer momento. Quando tudo parecia ter terminado Tibérius Wolf aproximou-se do Moleque.
"Agente Especial Yoshuah..."
"Agente Especial Tibérius Wolf...você sabe que por aqui um nome romano causa problemas..."
"Isto aqui é a Palestina agora e será a Palestina até o fim." Disse Tibérius Wolf.
"E ...ao que devo sua visita...você também quer discutir algum detalhe obscuro da Torá? Não parece ser o caso..."
"Yoshuah...estes Rabinos...tem algum que você considerou...especial?"
O Garoto olhou para o cachorrinho branco que lhe dirigia a pergunta com a mesma sobriedade como se explicasse tacitamente a natureza da Letra Aleph e do porque ela poderia surgir quanticamente debaixo de uma escada numa obscura livraria argentina e trazer aos olhos de um homem que se tornaria cego a revelação de todas as estórias possíveis de serem contadas.
"Especial. Sim. Eu vi um. Ele aínda está aqui. Mas me diga Tibérius, por quê você precisa de um Rabino? Algo que eu não sei aínda?"
"Yoshuah, eu não preciso deste Rabino, eu preciso da linha genética dele. Se ele é tão especial como você diz, eu precisarei de uma linha direta para daqui dois mil anos."
Devemos entender que Rabi Yoshuah é um garoto de dez anos conversando com um cachorrinho aparentemente muito esperto para ser um amigo imaginário. E sim, ja existiam Nerd naqueles tempos.
"O Agente Especial Tibérius Wolf deu um upgrade no Projeto Philadelphia..." o jovem Rabi exultava."Brilhante!"
"Yoshuah...o Rabino, quem destes é o Rabino?"
O Agente Especial Yoshuah encarou o Agente Especial Tibérius Wolf. Um garoto de dez anos encarando um mini schnauzer branco. E isto durou um bom tempo. Tibérius devolvia o olhar.
"Pelo visto a missão aqui vai ser mesmo curta..."
"Lamento Yoshuah...mas eu preciso saber qual deles é o Rabino."
"Me responda só uma coisa Wolf, vai valer a pena?"
"Yoshuah...você fez um bom trabalho. Mas o Adversario continuou agindo. Há outros, antes e depois de você, mas, dentro da linha de tempo tenho pouco menos que dezesseis dias para garantir que o Plano vá dar certo. Eu preciso de um Rabino que tenha o Poder da Palavra Yoshuah...eu preciso de um cabalista."
O Moleque se levantou e com calma chamou Tibérius Wolf sutilmente com um piscadela. Ha poucos metros, sentado sobre uma pedra, um homem magro, perto dos seus quarenta anos, cabelo grisalho sorria para o Nada.
"Este." Disse o Agente Especial Yoshuah
O sujeito não se parecia em nada com um Doutor Das Letras Sagradas, um Mestre Rabino como os outros que se foram. Descalço, maltrapilho, uma basta e leonina cabeleira prateada. Um olhar estupidificado para o céu, para a pedra e para flor. Alguém que parecia estar assustado e embevecido ao mesmo tempo. Seu pés pequenos mostravam solas alargadas e rachadas por caminhadas longas, um rosto acostumadocom a fome, um corpo acostumado com o frio, e rugas marteladas pela dor.
"Yoshuah...-disse Tibérius Wolf - esse camarada me parece um completo idiota. Esclareça.."
"Ele conhece a Lei lendo o que está ao seu redor. Ele caminha como um mendigo durante o dia e como uma criatura anormal durante a noite. Ele anda, e à medida que caminha lê cada pequeno detalhe ao seu redor e o interpreta e o re-configura. Este sujeito é capaz de encontrar Monstros Tibérius, de domá-los com mansidão e encaminhá-los para a Agência."
"Um Exorcista..."
"Mais do que isso. Enquanto os outros Rabinos se preocupavam com detalhes do Livro e como eu poderia entendê-los, este homem apenas sorria como se não lhe interessasse em nada. Veja-disse Yoshuah, tirando do manto um pequeno objeto e colocando entre as patas de Tibérius Wolf.
"Uma pedra."
"Tibérius, você precisa de um Rabino. Este é o seu homem, a linha genética que deseja, eu garantirei isso para você agora independente de como minha missão se dará. Com uma condição."
"Eu posso fazer um relatório, mas não vou fraudá-lo, Maomé meu muita dor de cabeça no...futuro, mas o que estou dizendo, diga logo o que quer."
"Faça o que deve ser feito. E você tem seu Rabino. Ele nascerá em 1974 depois da data falsa. Mas você precisará treiná-lo para ser o Caçador e o Leitor."
"Yoshuah...espero não nos vermos de novo."
"Eu também não Tibérius."
Tibérius Wolf se afastava. Depois de algum tempo, quando a escuridão já o engolia, olhou para trás.
O Agente Especial Yoshuah, um Menino de dez ano que em vinte e três sofreria o horror e a destruição do corpo, que pediria que o cálice lhe fosse afastado e que gritaria lancinado pela dor e pelo abandono absoluto o porque tinha sido abandonado, aquele garoto colocava sua mão direita sobre a cabeça daquele que considerava um verdadeiro Rabino, e lhe prometia. Vida Eterna.
E assim nasceu o Judeu Errante.
E o Tibérius Wolf voltou-se para frente, para a escuridão. E seguiu em frente. Rumo ao Futuro.
Rumo a Escuridão.
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